1.1.14

43

Eram 2 da manhã. Eu acordei e a vi sorrindo para mim com um cara de sádica, assassina, havia matado um leão ou um homem aquela noite? Mas quem sabe, ela não era de falar, nunca foi.
- Você não presta – Eu disse entre os lençóis
- E você bebe demais e me xinga demais e o mundo é feio -  Ela rebuscou subindo a alça do vestido.
- Pra onde você vai? – Questionei-a
- Preciso trabalhar, meu aluguel não se paga te vendo beber whisky nesse fundo de poço – Ela respondeu ligeira.
Ela fugia de mim, sempre me mandava embora mas eu batia na porta dela, ela abria. E eu a via descalça com um sorriso no canto da boca, de relance os cílios serrados e os lábios molhados que me chamavam. Os cabelos batiam no meio das costas e eram lisos. Conheci muitas de cabelos cacheados, mas elas me deixavam tontos depois de um tempo e não tinham bom gosto. Soube de uma que abandonou o namorado pra fugir com um imbecil que usava brinco, andava de moto com documentos falsos e sorria para quantas mais passassem do seu lado. Mulheres são dádivas, disso nunca discordarei, mas as trate como únicas quando estiver com elas. Mesmo com vinhos e cervejas e cigarros e vícios, eles nunca irão suprir o calor das palavras delas no seu ouvido.
- Não vou mais abrir a porta quando você bater, aliás, nunca deveria ter aberto. A gente não pode mais se ver.
- Tudo bem – Respondi enquanto me vestia.
- “TUDO BEM”?! É ASSIM QUE VOCÊ ME TRATA, SEU FILHO DA PUTA? – Ela explodiu e partiu para cima de mim chorando.
Esmurrou-me o peito, os braços e eu deixei. Não a culpo, ela tinha um ódio escondido. Parecia que a força das ondas que massacravam a costa caia também nas entranhas dela. O mundo acaba com você, acabou com ela.
- Ei, não chore, nós sabemos que as coisas são como são. As esperanças dos tolos são só esperanças, nunca vamos ver as ilusões se tornarem realidade porque são ilusões.
- NÃO PRECISA MAIS FALAR! VÁ EMBORA – Ela gritou e bateu a porta do quarto me empurrando para fora.
Dirigi meu carro de volta para casa. O rádio tocava alguma coisa do Coltrane. Esses negros do jazz sabiam consolar um homem no fundo do poço, mesmo depois de tantas brigas, de garrafas quebradas nos ombros, de surras dadas por maridos ciumentos. Mesmo depois de quebrarem meus jarros e queimarem minhas palavras. Mesmo depois de jogarem minhas coisas nas ruas e lançarem minha máquina de escrever em um rio, um Blues lento ou um Jazz, não entendo porquê, supria por alguns minutos a dor.
Parei em um sinal e essas cidades grandes todos são repletas de gênios. São pessoas cuspidas por Deus para inundar o dia do povo e nunca mais serem vistas. É utópico pensar que o louco que recitava:

“As palavras não ferem
De todo caos, eu sou correto
O magnata, o chefe da nação
Ninguém sabe o que respiramos”

Irá ser ouvido amanhã, em uma livraria recitando outra obra. Mas existe os “boa pinta”, para não dizer fudidos, que vem com um discurso de “Não publiquei ainda por não ter enviado meus manuscritos a alguma editora”, que irão ser publicados por ter pais que resolvem seus mundos com uma ligação.

O sinal abriu e eu nunca mais vi aquele moço de cabelos bagunçados. Pode ter morrido quando chegou à segunda estrofe do seu grito ou até torturado pela policia por dizer que o juiz que julgava seus suspeitos era ladrão. Nunca se sabe o fim da história.


Naquele dia vi o sol nascer, com uma garrafa de vinho na mão, pela janela a cidade acordava em gritos e buzinas. Cai no sofá e dormi intensamente. Preferia morrer ao enfrentar a vida, mas a Morte não me queria, daria trabalho demais julgar meus pecados.

27.7.13

Não me fale tão, tanto

Elis tem cabelos de arrebois
Após um sorriso discreto percebo
Que a calunia que existe em nós
Não será vendida em sebos

Logo me disfarço, eu mudo
Permuto meu peito aberto
Por algo só e arrasado
Elis, não te ponho de lado

Chega de te trair, Elis
Terminamos de nos enganar
Acabando a visita nua das nossas almas

Depois de morder com calma
Inundando-te de agônia
Cale-se e volte para seu herói

Não-Novo

As 3 ou 4 da manhã
Quando os castelos se escondem
Onde seu norte é lacuna
E Da Vincis viram areia

Nos rasgos do teu vestido
A mancha ainda floreia
Na veste desbotada
A loba medrosa cresce

Ela tem medo do mundo
Como será engolida
Pelo escuro, abismo devorador

Porque sentiu a chuva cair
Molhando sua saia vermelha
Enquanto ela gritava seu ultimo adeus

Amante, você deve ter vindo

Incluso, intruso, meu cerco
Te ver nua, deleito
São fotos a mais, cabelos normais

No raso, um pouco, moreno
Cabelo enrolado, não estando ao teu lado
Curvas de 8 ou 18

Tudo é dança, não sorrir
Algo quente, não só, com tu
Não contudo, com você, nus

Quase juba, quase medo
Quase tigresa, quase lobo
Não vá, não me rapte-me
Não ria, me roube

Me roube como miseravel
Aceito cadeia,
Estar preso em tua teia

9.7.13

Fim, Noite

Deixa a luz meio apagada
Teu corpo nasce mais belo'
Ela disse sem lentes
Com um sorriso cheio de dentes

Mostrando as costas nuas
Mais bela com um raio de lua
Largando das cortinas escuras
Rasgando com unhas e olhares

Não me esqueço de te ouvir
Te ouvir gritar 'sou pura'
E de suplicar 'não saia'

Trajo-a como pele
E a vejo cair em meus braços
Como demônios caem do céu

6.9.12

Caetanando

Amo seu mudo
Amo lua
Amo tu nua

Amo mar
Ondas a ir e voltar
Dá-me teu corpo para esbaldar

Amo o risco
Afronte artilharia
Traja minha camisa e me arrepia

Amo te queimar
Com odio,prazer e ciúme
Te ferver de desejo como costume

Amo não saber navegar
Nas suas curvas, aurora
Nos seus labios de amora

Amo tua iris
Ser seu calcanhar de aquiles
Contraste fulmina, domina
Abomina-me o odio

Amo seus devaneios
Entorpecentes seios
Amo nosso amor de ondas


Emerson Costa

30.7.12

Elis, me diz...

Elis sorrindo diz
Que o bom da vida é ser feliz
Cair com força, quebrar o nariz
Sendo boba, sendo atriz

Elis contente
Sai vagando pela tangente
Com os lambios em ardente
Depois da dor da gente

Elis alegre a cantar
Dormir, chorar, bocejar
Cai boba, falta ar
Lá vai Elis extravasar

Elis me diz que encontrou o amor
Nele também encontra imensa dor
Mas quem sou eu para me opôr?
Deixe Elis brincar de amor

Emerson Costa